quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sangue Negro

Pode até parecer insistência de minha parte ficar comentando os filmes que assisto,mas é que numa cidade menor que a minha de origem,minhas visitas à locadora se tornaram mais frequentes do que a bares e festas.Não que a cidade seja ruim,apenas conheço poucas pessoas,e das poucas que conheço,são raras as que gostam das coisas que gosto,como cinema,literatura,e além do mais,sou meio chata para gostos musicais,por isso evito até perguntar o tipo de som que as pessoas ouvem para não esboçar nenhum tipo de reação ofensiva.Então deixemos assim...fico com meus filmes numa condição semi-isolada...mas não tenho do que reclamar.
Na verdade,essa ladainha toda é para preludiar um comentário sobre um filme excelente que assisti hoje pela tarde chamado "Sangue negro",com Daniel-Day-Lewis, que trata do início da corrida pelo petróleo nos EUA no início do século XX.A maneira como o assunto é tratado é quase que uma profecia em relação à corrida atual pelo minério.No filme a exploração se dá em pequenas propriedades de terras onde vivem famílias protestantes-fanáticas à moda evangélicos atuais,com direito a rituais de exorcismo e tudo,o que me fez lembrar muito o Talibã afeganistanês,terra de muito sal e petróleo-que de início pouco sabem do valor do petróleo.O explorador (Lewis) compra a propriedade da família e muda-se com seu time de perfuradores juntamente com seu pequeno filho, e lá ergue uma grande plataforma de madeira sugadora.A ganância presente nas feições do personagem,e a maneira como vem a tratar o filho quando doente- o pobre perde a audição numa explosão de metano,que jorra antes do jato de petróleo-é de uma crueldade inenerrável,chegando incusive a abandoná-lo em um trem para livrar-se do "problema" que empatava seus negócios em expansão.A atitude do pai em relação ao filho que "atrapalha",retrata em cores desbotadas a realidade vivida por povos do Oriente Médio -também hoje tratados como um empecilho, um "problema",pois não se pode abandoná-los a todos em um trem-que,100 anos mais tarde,pelo simples fato de estarem vivendo e morrendo sobre uma terra que vale bilhões de dólares,sofrem com guerras e intervenções militares.Aproveitando para unir as pontas,ouso traçar um paralelo com um outro filme "O preço da coragem" com a bela Jolie, que perde o marido jornalista para uma entrevista com um Sheik "anti-americanista"-o filme se passa no Paquistão-e desenvolve-se numa época em que o petróleo já não responde mais por todos os males,mas é o primeiro rsponsável.
Não se trata de uma crítica ao "american way of life" e muito menos de um discurso oriundo de doutrinas socialistas.O fato é que os americanos foram os primeiros a deflagrar um "boom" de tudo por dinheiro e poder na História.Desprezando seus "pais" ingleses,os norte-americanos inauguraram durante a Primeira Guerra Mundial algo nunca visto:enriquecer sorrindo às custas de soldados europeus nas trincheiras,para quem forneciam os enlatados que até hoje consumimos, e após o término do conflito,espalhar a fome pelo mundo inteiro com o acúmulo sem compradores dessas porcarias industrializadas...chamaram de superprodução...a verdade é que já haviam produzido enlatados para durar pelo menos mais 10 anos de guerra!!!!E já se compara a crise econômica atual com o Crack de 29.Mas isso é assunto para outro texto...
Enfim,Lewis atuou muito bem no filme ,apresentando inclusive várias transformações a que se submeteu para o papel- manca de uma perna,é meio corcunda, e sua voz está irreconhecível- e deixa bem claro que havia muito mais do que dinheiro em seu empenho em fazer o filme,pois este configura-se num belíssimo protesto,com pinceladas cruas de frieza humana diante do poder e a escravidão humana diante da religião.

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