segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Deus e o Diabo

Há algumas semanas, em sala de aula, uma aluna de 11 anos de idade quase me levou a dizer absurdos durante uma aula de História na escola na qual leciono. Na ocasião, discutíamos sobre a religião dos egípcios, assunto sobre o qual eu discorria cuidadosamente, para não correr o risco de ofender as crenças religiosas da classe. Ao falar no ritual de embalsamamento ao qual eram destinados os nobres após a morte, para que o corpo não sofresse degradação, uma aluna me perguntou:
- Professora, eu não acredito nessas coisas de vida depois da morte!
Como uma professora espirituosa e pronta a abrir espaço para debates, eu perguntei então sobre o que ela acreditava que acontecia com as pessoas após a morte.
- Eu acredito que se a gente é bonzinho, vamos para o céu, e se somos ruins, vamos para o inferno!
Longe de contestar qualquer dogma religioso, ou de criticar qualquer crença, procurei manter a calma,pois a mesma aluna já havia me criticado quando no bimestre anterior, tive de explicar à classe a Teoria Evolucionista(que defende a feliz idéia de que somos macacos evoluídos).A mesma aluna já me havia dito aquele insistente “eu não acredito!”.Segurei meus ímpetos e falei apenas que cada um deveria acreditar naquilo que lhe conviesse,que cada um tem as suas verdades e tal.Prossegui a aula,(já não com o mesmo entusiasmo) e logo comecei a falar sobre a crença egípcia de que não havia apenas um deus, e sim um deus para cada coisa...fertilidade,paz,amor.A terrivelmente teimosa aluninha novamente me interrompeu com os seus “não acreditos”.Os demais alunos começaram também a ficar inquietos,já demonstrando irritação em relação à colega que insistia em interromper um assunto tão interessante.Deixei-a falar o que queria, mas não pude deixá-la sem resposta:
- Fulana, acho que tens todo o direito de te manifestar e de acreditar no que quiseres.Mas acontece que estás começando a perturbar a aula e teus colegas que,mesmo que acreditando em coisas diferentes das tuas ou das minhas,conseguem se manter interessados.Qual é então o problema contigo?
Ela me respondeu que se ficássemos falando “nessas coisas”,o Diabo iria puni-la.Senti neste momento que o sangue subiu violentamente ao meu rosto,e devo ter ficado muito parecida com a criatura tão temida pela menina.Comecei então a esbravejar:
_ Mas criatura,tu não vês que tu perdes teu tempo acreditando em coisas que não existem?Não vês que teus pais te ameaçam com o Diabo quando querem te fazer comer verdura?Ou quando querem que faças algo que não queres fazer?Já paraste para pensar que o Diabo é irmão do Papai Noel e do Coelho da Páscoa?
A turma inteira começou a rir de mim ,de minha reação e claro ,da colega.E como se não bastasse meu discurso inflamado de caça-mentiras,eu segui em meu protesto:
_Vocês estão estudando em Geografia as Camadas da Terra.Sabem que existe a crosta terrestre,o manto e o Núcleo...então me digam:Onde é o tal inferno?Na crosta,no manto ou no núcleo?Sim,porque vocês me dizem que inferno fica lá embaixo,não é?Então?Em qual camada está o Inferno?
Não sei dizer se me arrependi do que fiz ou se com essa minha atitude eu deixei claro que não acredito em Inferno,e nem no Diabo .Depois,já em casa,me peguei fazendo perguntas à mesma professora que desmentiu a existência dessas entidades em sala de aula:será que acreditas em Deus?Será que para existir Deus,é preciso que exista o Diabo,o Inferno?
Sinceramente,acho que já existem muitas coisas ruins que são mostradas todos os dias na TV,no jornal ou em qualquer meio de comunicação.Para que então assustar as pobres crianças,ameaçá-las com coisas que,mesmo que existam,estão fora de suas realidades,se a própria realidade já é assustadora?

2 comentários:

pablodelarocha disse...

sensacional!
acho q isso faz parte da curiosidade da criança. a felicia em breve deve começar com essas perguntas.
Foda é q não adianta tu querer ensinar uma coisa, quando toda a sociedade quer ensinar outra.

mas acho importante tu falar essas coisas... faz a criança tentar entender o mundo sob um outro ponto de vista que não o dos pais bitolados

Paula de la Rocha disse...

Valeu ,mano!
Qualquer palavra de alento é um empurrãozinho para frente!Me faz pensar que talvez minha sobrinha talvez não passe por dúvidas tão desnecessárias!bjs